domingo, 17 de junho de 2012

Entre as Ruas de Um Tempo



          Andava por este vilarejo à procura de um bom vinho, suas ruas estreitas e ensolaradas movidas pelo vento e o estrondo das ondas próximas. Sensação de estar distante de tudo, de qualquer conversa profunda, qualquer ser, qualquer momento de alma. Os passos na areia, a sombra que insistia em estar ao lado. Vazio. Mas nenhum desespero. Lembrava-me de lugares e pessoas que existiam e que habitavam meu peito, mas distantes o suficiente para me calar. O silêncio me seguindo pelas ruas e vielas. Mas os exílios são assim. Passamos também por estes dias, faz parte, talvez já estejamos acostumados. 

          Como se as notas desta música tocassem a alma de outros distantes irmãos de exílio, uma sensação estranha de ligação e dor explodindo a cada passo (e a cada nota). Nenhum desespero. Continuamos com os passos e as notas e tudo parecia tão antigo... Como num velho filme em preto - e - branco (aqueles ruídos e cortes, imagens embaçadas e apenas a música nítida). Não era a distância nem o tempo, nem eram nomes ou histórias. A pura ligação dirigindo-se para fora destes tempos e espaços. Talvez estes ventos sejam comum em certos exílios. 

          Sim, o peito reage com esta percepção, o baque, mas ele deve se mover como os passos e a areia. Olhar as pessoas distantes que passavam próximas, seres de um outro filme, um outro mundo, outras prisões e músicas. 



          Saborear lentamente este carmenere ordinário  traz-me a sensação de estar compartilhando o momento com estes ilustres e distantes ausentes, como se neste momento sentissem o mesmo gosto desta bebida  e as notas do piano. Saúdo-os. Seres próximos que não couberam neste meu pequeno pedaço de existência, que não conheci... Outros que simplesmente estão distantes. Nem sei em que planos ou terras. Ou se noutras praias de ventos e ruas estreitas. Apenas comungo o que se traduz por isso, este compartilhar triste, esta vaga ideia de irmandade e desconhecido, exílio e vida. Tudo resumido neste agora.

          Mais um por de sol num domingo, céu limpo com aquele jogo de cores único, estamos aportando na noite. Presenças que desconheço acompanham esta morte e este renascimento nas trevas, esta luz que sempre brilha por si, como um amontoado de pequenas chamas longínquas. Bom sentir isso daqui. sem nenhuma outra opção, apenas isso, este jogo todo de imagens, afetos, dores, estranhezas. E alguma paz.

          

         

          
          

          
          
       

sábado, 16 de junho de 2012

Espaço

          "(...) Agora vamos falar do espaço. porque meditação é isso - espaço. Não temos espaço no cérebro. Há espaço entre dois pensamentos, mas ele ainda se encontra na esfera do pensamento.Então, o que é espaço? O espaço contêm o tempo? Ou este inclui todo o espaço? Falamos sobre o tempo. Se o espaço contém o tempo, então não é espaço. Então ele está circunscrito, limitado. Portanto, pode o cérebro estar livre do tempo?
          (...) O tempo é movimento, é uma série de incidentes. O pensamento também é uma série de movimentos. Portanto, tempo é pensamento(...)".  (J. Krishnamurti, O Futuro É Agora, Cultrix, 1985)


                                                                              *  *  *



          Se me pergunto "o que é o tempo?", com que "material" deverei responder? Eu só posso responder isso com aquilo que me assola dia a dia, com o que me é comum. Não tenho acesso a um mundo mas o construo com suas representações. Então, falar de tempo e de espaço, conceitos que criei (criamos), exige que se responda com este próprio material, o "material das representações".

          Como processo a palavra "tempo", seu conceito? Como é o "tempo - para - mim"?. O que é o "espaço - para - mim"? A "vida- para - mim"? Só deste ponto de vista é que estas respostas teriam algum valor, algum efeito prático para mim. O tempo real é o tempo do meu dia - a - dia.

          Assimilo parte do mundo em termos de representações e seus movimentos, lugares. Assim o construo  com pensamentos. Representações dispostas num movimento, associadas e vividas num movimento. O movimento como "pano de fundo" para tudo. Fluxo. Pensamentos não são grandezas estáticas e nem limitam-se a uma ou duas categorias. Imagens, afetos, sensações, uma série de coisas disparam com este movimento. O pensamento me parece a "dança das representações" - dança como movimento, nosso "tempo". O pensamento poderia ser o "tempo das representações". No mundo "externo", o tempo de meu dia é construído pelos fatos que ocorrem, caminham através de mim: meu acordar, meu nascer do sol, meu café, meu trabalho. E aqueles ponteiros loucos do relógio que ora correm, ora arrastam-se... enfim. os ponteiros do relógio nunca correm iguais para mim - há um aspecto internalizado deste "tempo dos relógios" e este tempo me é essencial, existe para mim. Tempo recheado de afetos, imagens, interligando representações das mais diversas ordens. Isto é meu "tempo", o tempo interno, único tempo a existir. Sim, eu não acredito no tempo dos relógios, ele não passa de movimento.

          Krishnamurti definiu o tempo como pensamento, uma operação brilhante, essencialmente pragmática, perfeita. Sim! Pensamento é movimento, nosso tempo é por ele significado, percebido... Existe o movimento e a percepção deste movimento se chama "tempo". Nossos movimentos internos são os pensamentos. Só podemos conceber um "tempo" baseados nos pensamentos, seus fluxos.

          Tentar explicar o tempo em termos físicos ou biológicos me parece como procurar entender o que se expõe agora neste blog através das peças deste computador. Procurar um "Krishnamurti" em alguma parte do HD, acreditar que noutra memória existe o senhor "Lobo da Caatinga" a farofar com as patafísicas... Como, no face, tentar entender o fim de um casamento (pistas de traição virtual) ou o começo de um relacionamento através da memória deste micro. Tolice. O rio sempre vai além de seu leito, do que o suporta e o traduz.

          "Não temos tempo para isso" - tempo para uma ação, o tempo agora como um espaço onde a ação - um movimento - se desenrola. Interessante. O espaço começa agora a surgir no tempo. Espaço para a ação, como um "leito do movimento". Mas não é assim que processamos o desenrolar de uma ação. Como um fenômeno, ela ocorre. Passa. Movimento. Num "espaço percepcional" que pôde contê-la para mim. Se a percebi como um todo, não preenchi seu "espaço" com meus pensamentos, imagens, julgamentos, não a deturpei. Houve um "espaço" ali em seu desenrolar, livre de pensamentos, livre do tempo. apenas o fenômeno sendo traduzido por meu "campo percepcional", e só. O "espaço Krishnamurtiano".

          O "espaço" nos remeteria àquele estado onde o pensamento cala-se por si, deixa de drenar energias, deixa de hipertrofiar-se. À própria "meditação". Ao estado prático de desvencilhamento desta cadeia insana de tempo e pensamento. O que surgiria com a normalização do tempo, do pensamento? A que estados este "espaço" nos remeteria? Há só uma forma de responder. Vivendo isso.

          Minha "mente" configura um fluxo (como todas as coisas vivas, tudo o que existe). Seus movimentos resumem-se à insuportável dança dos pensamentos, uma cacofonia insuportável, tagarelices inúteis, um curioso e patológico jogo de desperdício de energia. Porque aprendemos assim. Não existia a disciplina de "espaço" na escola, na faculdade, tínhamos como modelos seres que também eram "normóticos" (Pierre Weil). E porque interessa a todo este sistema que seu gado exista assim.

          Estaríamos num "uso incorreto" desta "mente", ou isso seria esta uma etapa evolutiva "precursora" para um real domínio do cérebro? Começo a ver a coisa pelos seus resultados. O que fizemos uns aos outros nestes milhares de anos, o que fizemos ao planeta... O que ainda fazemos conosco.

"Estamos todos no trem errado, na trilha errada, indo na direção errada." (U. Gopala krishnamurti)




  
          Não participo de nenhuma "teoria conspiratória" ou coisa que o valha. Não duvido, podem ser os americanos, podem ser os Reptilianos, os Sábios de Sião, pode ser Lúcifer ou o Vaticano, Walt Disney. Não seria útil identificá-los agora. Porque respiro a atmosfera de escravo. Estou embebido do mais profundo condicionamento, definiram meu "tempo" e meu "espaço", iludiram meus sentidos mentais, hipertrofiando-os.  Porque durmo e acordo acreditando ser um "humano", um especialista, um amante, um pai, um filho - encheram-me de papéis que não me esgotam em verdades. Como as carnes que eles impregnam de sofrimentos e drogas, seus cereais com pesticidas, e ainda me mandam tomar coca - cola. Dominam assim meu corpo, destroem-no.

          Uma sociedade que passa a ser cada vez mais o espelho daquilo que sofremos "por dentro". Suas "melhoras" ocorrem porque beneficiam pequenos grupos e custam o sangue do mundo. Escravos sugando escravos, espécie de percevejos canibais. Não sou tolo o bastante para investir esperanças nisso, neste caos que apodrece dia a dia, corroendo seus próprios alicerces. Penso em "inteligências" permitindo e instigando este jogo suicida, atuando na cegueira e na ambição desmedida de seus servos.

          Tudo isso me parece começar exatamente ali onde o "espaço" foi substituído pelo "tempo", onde fomos afastados de alguma coisa profunda e sagrada, de nosso silêncio... Do que deveríamos ter assimilado com todo o aparato psíquico que trouxemos (e falhamos). Inútil agora procurar culpados (mesmo em nós mesmos). U. Gopalla Krishnamurti afirmava que este estado de "morte do pensamento" nada tinha a ver com "iluminações" ou coisas do gênero, tratava-se de uma mudança biológica. Bebera da mesma fonte que seu predecessor (J. Krishnamurti) e trouxe a sua versão da coisa. Talvez não estivesse errado. Vários podem ser os aspectos, cada despertar pode trazer algo diferente ao mundo.

          O fato é que ainda "tateamos" ao redor desta metafísica possível. Sentimos às vezes um certo cheiro de liberdade que surge no vento, tentamos não acreditar naquilo que nos mostram, mas nos sentimos em "mutação". Creio que desde sempre. Isso nos diferenciou sempre das pessoas, não que fôssemos melhores, mais inteligentes - apenas éramos diferentes. Não compartilhamos nunca as mesmas cartilhas. Ainda lutamos, sim, mas não é com o mundo. Nosso inimigo, expulso do mundo, configura-se agora em nosso interior. Nossos vícios de pensamentos, nossas dores e atitudes desconexas, tudo aquilo que não ousaremos corrigir.

       
       

       

       

     

Krishnamurteando...


J. Krishnamurti - O Futuro é Agora - Últimas Palestras na Índia 1885

de VossaIndecência Nestor O Esbórnio, el Viernes, 15 de junio de 2012 a la(s) 20:52 ·
Varanasi - Debate Com Os Budistas -

9 de novembro de 1985

          "(...) Eu vou morrer - isto é certo. E digo, pelo amor de Deus, espere um minuto. Mas se eu perceber que todo o tempo é agora - isto significa que a morte e aq vida estão juntas; elas nunca estão separadas. Portanto, o conhecimento está me dividindo - conhecimento de que eu vou morrer no fim de janeiro - e eu fico assustado; e digo, por favor, por favor, espere, espere, espere, tenho que fazer um testamento, tenho que fazer isto, tenho que fazer aquillo. Mas se eu vivo com a morte, eu faço isso o tempo todo; isto é, eu faço o meu testamento. Estou morrendo agora significa que eu estou vivendo. Estou vivendo e a morte é a porta ao lado;não há divórcio ou separação entre viver e morrer.
          O senhor pode fazer isso, ou é impossível? Isso significa que a morte diz, "O senhor não pode levar nada consigo". O seu conhecomento, os seus livros, a sua esposa, os seus filhos, o seu dinheiro, o seu carater, a sua vaidade, tudo o que construiu para si próprio - tudo acaba com a  morte. O senhor pode me dizer que há uma possibilidade de reencarnação. Mas eu lhe pergunto: O senhor pode viver agora sem o menor apego ao que quer que seja? Por aqu adiar isso - que é apego - até o leito do enfermo? Livre-se do apego agora (...)".

         Varanasi - 18 de novembro de 1985

          "(...) Então, o que os senhores são? Eu digo que os senhores são um feixe de tudo aquilo que é associado pelo pensamento. O que quer que os senhores pensam, isso os senhores são (...)".

        Varanasi -  22 de novembro de 1985 - 

          " (...) Quando os senhores são feridos, não fisicamente, mas psicologicamente, interiormente, dizem, "estou ferido". Os senhores estão todos feridos, não estão? Desde a infância, até ficarem velhos e morrerem, estão sendo feridos o tempo todo. então dizem, "não posso mais suportar as feridas, estão tão ferido. Estou apavorado". Eu construo um muro ao meu redor, me isolo - tudo isso é consequência de se estar ferido. 
          Mas quem está sendo ferido? O senhor diz, "sou eu". Então, o que é esse "eu"? O senhor simplesmente diz, "eu", o ego, qualquer outra palavra que vier, mas não investiga quem é o "eu", quem é a persona. Quem é o senhor - um nome, uma posição, se for suficientemente afortunado ou desafortunado; um emprego, uma casa, um apartamento e um título depois do nome? Aí estão as imagens que o senhor construiu de si mesmo, de modo que quando diz que está ferido, as imagens ao redor estão feridas. Mas todas estas imagens são o senhor - o senhor é um físico, o senhor ´r um médico, o senhor é um filósofo, o senhor é um membro do parlamento,ou um engenheiro. Já notaram como as pessoas são apresentadas pela profissão que exercem? Portanto, o ego, a psique, a persona, é a imagem que o senhor construiu de si próprio. 
          O senhor construiu uma imagem de sua mulher, e ela constrói uma imagem do senhor - e essas imagens se relacionam. Veja o que está acontecendo. As imagens se relacionam - não as pessoas, mas as imagens - e o senhor vive disso. Portanto, o senhor nunca conhece a sua mulher ou o seu marido, ou o seu amigo. Ou não se importa em conhecer, mas o senhor tem uma imagem. A pergunta é: pode-se viver sem uma única imagem? Vejam as implicações. a beleza, a liberdade nisso tudo.

          "(...) Portanto, todos nesta terra - todos - do mais rico ao mais pobre, do mais poderoso ao menos poderoso, todos sofrem. O sofrimento não é seu, porque todos sofrem. Não é o meu sofrimento; é sofrimento. Será que os senhores estão entendendo? Meu filho morre e eu fico terrivelmente abalado. Choro e digo, "meu Deus, perdi meu filho", e isso torna-se um problema perpétuo. Choro toda a vez que vejo um menino ou uma menina. E sofro a dor da solidão, do pesar.
          Se há sofrimento não há amor. Por favor, percebam isso. Eu sofro, sofro, sofro, isso é em parte devido à autocomiseração, à preocupação pessoal, do tipo "minha dor é diferente da sua dor", "meu guru é mais forte do que o seu", "meu Deus é diferente do seu". Então, há um fim para o sofrimento? Ou a humanidade deve passar por isso a vida toda? O orador diz que pode haver um fim. De outra forma, não há amor. Derramo lágrimas, sofro, e o senhor vem até mim e diz, "todo ser humano na terra sofre: não é o seu sofrimento, todos nós participamos dele". Eu me recuso a aceitar esta afirmação porque adoro o meu sofrimento, sou feliz no meu sofrimento, e quero estar sozinho com ele.

           (...) O senhor não está separado da humanidade. Pode ter uma posição melhor, títulos, mais dinheiro, mas o senhor faz parte da humanidade, sua consciência faz parte da humanidade. A sua consciência contém todas as coisas pensadas, imaginadas, temidas pelo senhor. Isso é a sua consciência, e também a consciência da humanidade. 

          "(...) Devemos falar sobre a morte. Desculpem-me. Numa bela manhã, sentado debaixo das árvores, tranquilo - sem nehum trem passando sobre a ponte - falar de morte pode parecer mórbido, pode parecer feio. agora, juntos, vamos partilhá-la - não apenas os senhores ouvindo e eu falando. Então, o que é a morte? Por que ficamos tão assustados com ela? Por que reservamos a morte para daqui a dez, vinte ou cem anos? É preciso, pois, perguntar não apenas o que é a morte e o morrer, mas também o que é o viver. O que é a sua vida? - escritório das nove às cinco, como escriturário, como governador, como operário, ou seja lá o que for, pelo resto da vida, exceto quando se aposentar como um velho maluco. E a sua vida é criar filhos, sexo, prazer, dor, pesar, ansiedade, problemas e mais problemas - doença, médicos, operações cesarianas, dor ao dar à luz. Esta é a sua vida. Estão de acordo? e chamam a isso de viver. E o senhor aguenta isso, gosta disso e quer cada vez mais. Certo? E a morte é posta de lado o maior tempo possível. E nesse intervalo de tempo, o mesmo modelo é repetido. Os seus filhos, os seus netos, todos vivem de acordo com este mesmo modelo.
           Então digo a mim mesmo: por que não transformar isso que chamo de morte em vida? Os senhores não podem levar nada consigo - nem mesmo tudo o que seu guru disse e tudo o que os senhores tentavam seguir, nem a mobília, a mulher, os filhos, nem toda a prata que guardaram, todo o dinheiro no banco. Já que não podem levar nada com os senhores, por que não deixar que a vida e a morte se encontrem? Entendem o que estou dizendo? Por que não deixar que a morte venha hoje? Não o suicídio, não estou falando em suicídio. por que não ficar agora, totalmente livres do apego - que é a morte? Desapeguem-se completamente - hoje, não amanhã. Amanhã é a morte. Então, por que não posso me livrar agora dos apegos, de modo que o viver e o morrer estajam juntos o tempo todo? Será que os senhores vêem a beleza disso? Essa condição lhes proporciona um enorme sentimento de liberdade. Assim, o viver e o morrer ficam juntos sempre. Não se trata de algo para assutar. se o cérebro pode fazer isso, então ele mostra uma capacidade totalmente diferente. Não tem ganchos, nenhum sentimento de passado, de futuro, de presente. É viver - é realmente um caminho sem fim de vida. Isto é, cada dia é um novo dia. Não interpretem mal o que estou dizendo - o futuro é agora.
          Não há isso de "eu nascerei de novo numa próxima vida". Esta é uma idéia à qual os senhores estão apegados. Dá-lhes grande alívio, mas se aceditam na reencarnação, então devem agir corretamente agora, porque na próxima vida vão pagar por isso ou ser recompensados. Esta é uma idéia reconfortante, mas não tem sentido. Porquie, se agirem corretamente agora, não tem sentido ser recompensado por isso. Probidade é probidade, não o que os senhores vão ganhar com isso. Esta é uma atitude mercantilista, uma atitude mecânica.

         " (...) A meditação implica libertar-se totalmente de comparações, de avaliações - e isso é difícil. Meditar é algo maravilhoso se você sabe o que faz. Quem medita é diferente da meditação. enquanto houver meditador não haverá meditação, porque aquele está preocupado consigo mesmo - em saber como está progredindo, o que está fazendo. Na meditação não há, de forma alguma, o meditador. Vejam por si próprios a beleza, a profundidade, a sutileza disso. A prática de meditação não é meditação - sentar-se e fazer com que a mente fique cada vez mais entorpecida, dizendo "sim, fiquei aqui durante uma hora". (...).
          Portanto, a meditação não é algo que se pratica, como se faz com um violino, com um piano. Praticar significa que se quer atingir certo nível de perfeição. Mas na meditação não há nenhum nível, não há nada a ser atingido. Assim, não existe meditação consciente, deliberada; ela é totalmente não dirigida, totalmente - se posso usar este termo, "inconsciente". Não é um processo deliberado.   (...)".






                                              

terça-feira, 12 de junho de 2012

Junho, 12, 2012, Terça.

 
          Superficialmente digo que a morte pertence ao futuro, que é um fenômeno que ocorrerá num futuro. Aprofundando um pouco mais a consciência, afirmo que a morte já acontece no futuro, pois a forjo dia a dia, desde meu passado. Então ela começa a acontecer dia a dia, acontece já no futuro, no tempo. Passado e futuro começam a ter suas fronteiras menos definidas.



          Aprofundo a consciência mais ainda. Meu passado acontece agora, arrasto e atualizo agora suas marcas. Os eventos pelos quais esperei acabaram acontecendo sempre "agora", todas as configurações atualizam-se neste agora. Nisto. Neste fragmento espacial imóvel e sem tempo. Deixo de mover-me numa escala temporal retilínea para começar a perceber que tudo aconteceu, acontece e acontecerá sempre agora. Vejo-me obrigado a deixar de me mover neste estranho tempo escalar. Percebo-o "vetorial", um vetor imanente dos acontecimentos. Percebo e, junto a ele, minha consciência. Um móvel se desloca de A a B, passo a entender que um móvel atualiza-se de A em B. Tudo fica estranho mas estranhamente lógico e conhecido.

          Então estou aqui. No mesmo tempo de meu nascimento e de minha morte. Aliás, estou apenas "agora". Nem aqui nem ali. Apenas agora. Já. Desde sempre. "Teorismos"? Não, isso me soa tremendamente prático. Estou aqui e agora a escrever, ao lado de meu nascimento e minha morte, no único espaço possível para minhas ações. Importa-me então isso. Só posso agir agora. Num eterno fluxo estático, prendo-o aqui enquanto aconteço.



          Percebo então que nunca poderia ter tido um passado. Foi a pequenez de minha consciência que separou tudo em três tempos. E que jamais terei um futuro. Quando começo realmente a não poder fazer nada pelo meu suposto passado, deixo de prender-me a regiões obscuras de ação. Acreditava-as proveniente de um "passado" atuante e inevitável. Desmoronam-se grilhões de condicionamentos, um a um. E quando me vejo aqui, desacoplado de qualquer ilusão de "futuro", começo a conhecer o exato momento de agir.

                                                                              * * *

          Desejos sempre residem no tempo - "amanhãs". "Traumas residem no tempo - "passado". Vejo que estas coisas parecem existir para uma escala linear ilusória - uma régua - apenas uma régua e suas óbvias funções práticas. Como um astrolábio, por exemplo. Iludido, havia tomado o universo por este instrumento. Ou um mapa. Algo extremamente útil, um instrumento. Pelo qual tomava as cidades, as florestas, as montanhas e planícies. Posso, a partir de um mapa, orientar-me no mundo e transcender este mapa, ou posso tomar o mundo por ele. A ciência não passa de um mapa, um importante mapa que nos orienta em determinados movimentos. Um conjunto de representações necessárias. Mas não posso confundir com ela o mundo. Não devo hipertrofiá-la (como aos meus pensamentos).



          A duração de minha vida está para o tempo de um sol como o tempo de um elétron a mudar instantaneamente de órbita (sem percorrer um espaço). O macro e o microcosmo diluem nossas concepções de tempo, espaço, existência.

          "Tempos" e "espaços" são forjados por uma consciência que ainda habita mapas e astrolábios, que ainda precisa de instrumentos para se sentir atuante. Podemos simplesmente usar um computador sem por ele sermos usados?

          Meus desejos passam a ser meus "traumas", colocados numa ilusão de futuro. E nesta escala posso voltar: Meus "traumas fundamentais" são meus desejos nesta mesma escala ilusória. Como se os fosse trabalhando ao longo da vida, conduzindo-os a um "futuro" ilusório - um campo de não - ação. O mesmo quando coloco as origens de meus problemas no passado. Eles sempre estiveram aqui, atuantes num campo onde não acesso, o campo do amanhã, o campo do ontem, pedaços de uma estranha sombra onde não quero mexer, atuar. Então eles atuam por mim. Minhas fobias, tristezas, minhas fugas e repetições, padrões de desarmonia.



          Existimos simplesmente como seres escalares, colocados numa curva de passagem do nascimento para a morte, acontecendo entre estes pontos. Numa curva que se movimenta de N para M. A consciência vive esta distância e não o ponto onde realmente localiza-se. O velho cálculo integral: Integramos a "função existência" e obtemos uma soma inútil de infinitos pontos entre N e M. Deslocamos nossa consciência como se ela pudesse existir ao mesmo tempo num segmento de curva - mas a consciência é puntiforme. A consciência, em sua plenitude, existe como uma "função derivada" - ela localiza num segmento de curva seu "ponto tangente", o exato ponto onde ela existe - uma tangente - ponto de intersecção entre esta curva e uma reta que "passa" por esta curva tocando-a apenas num ponto. Como se este ponto acabasse com nossa ilusão de curva, nos deslocasse existencialmente desta percepção de curva. Isso é um realinhamento.



          Uma consciência sem a ilusão de tempo funcionaria para além do segmento de curva N-M. Despertaria em seu exato momento, seu "agora". Exatamente como na metáfora dos antigos - a "roda das ilusões", Maya. A vida atual como um segmento desta circunferência, a consciência movimentando-se presa a ela enquanto não se coloca no ponto tangente, no "agora" de certo momento. A reta tangente localizando o único ponto de escapatória daquela curva, indicando exatamente aonde esta transcendência é possível. Fim da cadeia de "causas e efeitos".



                                                                               * * *

          Habitar o agora, realinhar a consciência em seu único eixo possível de ação - ação autêntica. Trazer a percepção para este ponto totalmente fora de meus tempos internos, "psicológicos". Só posso isso "agora". Sem objetivos (sonhos que nos afastam deste agora, traumas que nos deslocam, em essência). Sem julgamentos. Uma ação, a única possível, nenhum objetivo ou escolha. Isso como fato.

                                                                           * * *

          Conturbado doze de junho - 12.06.2012. Terminou há uma hora e vinte minutos. Os ventos por aqui fazem-se mais fortes e já quase esfria um pouco à noite. As ondas parecem explodir próximas ao portão. Completo um ano de existência nesta casa por estes dias. A pequena gata Shiva brinca em meu colo enquanto escrevo asneiras destas teclas. Um estranho silenciar começa a tomar conta deste momento, diluindo cansaços, apreensões, solidões, deixando-me simplesmente aqui neste lugar. Esquisito monastério de um monge só, distante exílio de nem sei mais o quê. Deixo que os ventos soprem esta complexa teia de sentimentos a dissolver, fluir...

                                                                               * * *


       



       


       
               
       

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Uma Metafísica do Oculto.I

         

          Um caçador de padrões. "Vetores" adimensionais que não consistem na matéria de seu objeto, mas os definem, controlam, movem. Como um "verbo" para um "sujeito"; O sujeito existe, o verbo o funda, movimenta. Diria que os verbos operam numa dimensão "acima" dos sujeitos. 
          
          Meu sujeito é uma existência. Para uma dimensão destacada do "todo". Meu corpo existe apenas nestas estreitas condições físicas, biológicas, químicas, existe formado deste meio, é parte dele, mas move-se. Sua dança desenvolve-se num palco estreito, significa este (e neste) palco. Mas o que o move deve ser algo que transcende este palco, algo de um palco "acima". Isso é tão óbvio, tão intuitivo que logo se mostra numa simples observação independente. 

          Há um meio complexo formado por diversas energias, elementos, um "espaço existencial" - e os "corpos" ou habitantes deste meio são o próprio meio. A montanha é a terra, a floresta é a terra, seus animais são também a terra. Da forma que consigo significar esta dimensão, as coisas aparecem assim. Tenho acesso por meus sentidos a este mundo material e assim o significo. Meu corpo físico é a terra, seus elementos. Isso é óbvio. Esgoto um plano, alcanço-o nas fronteiras da compreensão (mesmo sendo infinito).  Este modelo hipotético de observação explica minha constituição e minha relação mais primitiva com este plano material. 

          Mas não movimento meu corpo segundo os movimentos deste plano - Sim, meus movimentos "biológicos", moleculares, seguem os padrões deste plano. Englobo matéria, assimilo-a, excreto-a, num simulacro perfeito de uma corrente, um rio. Mas há uma qualidade de  movimento que se destaca deste plano material como o vejo. A consciência. Posso dizer que o corpo acolhe a consciência - que é também um fluxo - como uma antena, um aparelho que traduz determinadas frequências eletromagnéticas. A consciência não é proveniente do corpo (neste plano material que entendo). Não é formada nele. Forma-se por ele, significa-se por ele. E o significa. Estúpido tentar entender a consciência como produto de um cérebro, ou como algo diferente de um fluxo. O PRIMEIRO PADRÃO QUE RECONHEÇO É JUSTAMENTE A EXISTÊNCIA DAS COISAS COMO UM FLUXO. Muito óbvio. 

          A Consciência separa-se do corpo, mas funde-se a ele quando elevamos "um degrau" nosso nível de compreensão. A música que escuto agora e que sai pelo meu rádio está e não está neste rádio, é e não é parte deste aparelho - o aparelho a expressa, a significa para certo meio, mas as ondas que a transportaram nada tem a ver com este aparelho. Meu corpo tem todas as condições de receber (deixar fluir, acompanhando) determinada "frequência existencial"; Adquiriu diversos elementos que representam esta frequência - mas a frequência não está no corpo. E está. Ou este corpo arranjou uma forma de representar esta frequência para este plano... A grande questão é perceber um aparelho altamente sensível e especializado - o corpo - como um receptor, algo que se conecta com certa energia, a traz em suas manifestações para este plano material. Chamem esta "frequência existencial" de alma, espírito, isso não importa. 

          Meus sentidos destacam apenas um plano denso, material, uma região energética extremamente densa, pois é ali e somente ali que este corpo pode operar diretamente, por si. Sabemos que existem outras regiões energéticas, outras "frequências existenciais" muito próximas. Energias que permitiram a formação deste globo denso - falo aqui de energias cósmicas que bem conhecemos dos mundos sub - moleculares. Esta matéria não foi a primeira manifestação do universo, antes vieram as "matérias das estrelas", outros estados vibracionais para os mesmos átomos que conhecemos daqui desta densidade. Duvido que um hidrogênio do sol seja o mesmo hidrogênio da terra, ou aquele que circunda o éter. Uma existência é sempre uma relação. são a mesma coisa para os nossos "sentidos". 

          E esta "frequência energética", se pensada como corpo,num mesmo padrão, como seria? Ela deve ser formada em algum meio, ser parte de alguma dimensão bem mais "sutil" (ou menos densa do que esta). Deve possuir uma organização interna, deve englobar, assimilar e excretar - deve também ser uma "existência de fluxo", um "corpo de fluxo". Deve ter tido um início e certamente dissolver-se-à neste seu meio. Mas deve também funcionar como um receptáculo para outra frequência. Padrões...

          "Corpos" entendidos, significados, são como derivações, pontos localizados numa curva. A integral de todos estes pontos configuraria uma curva, um agregado de corpos impermanentes que se estruturam no tempo, mas num mesmo espaço. Poderíamos então ter tantos corpos quanto os planos considerados, interdependentes num tempo, interligados, cada vez mais complexos em suas relações, sempre tentando um realinhamento de "frequências existenciais". Daí os antigos se referirem a "sete corpos", teriam tido esta sensibilidade (sem o auxílio de rádios, televisores, computadores ou da nossa física nuclear). E ao meio de tantos corpos, afirmarem que "na matéria impera o vazio". Sim, os "Mestres" nasceram muito antes dos humanos...
                                                                             *  *  *  

          O que os antigos e os atuais místicos chamam de "Iluminação", chamo a isso de "realinhamento". Saber-se conectado a frequências que se alinham, que abrem a consciência, que nos libertam de uma prisão insana e brutal, dos grilhões da "existência". 
          
          
          

domingo, 3 de junho de 2012

       
          22h10min, noite de domingo, 03 de junho.

           A chance de estar quase silente numa casa afastada, estranho exílio com alguma paz. Não houve um dia e nem haverá uma segunda-feira. Sensação de inexistência que invade - aquela inexistência que reporta a outras consciências. Há um corpo passageiro que digita, que passou um dia aqui dentro, enfurnado numa busca que nem é sua. Mas este corpo não estaria neste movimento agora se não fosse por outra coisa que o move. Que busca momentos de originalidade, tangentes. Sim, algo proveniente de existências virtuais.

          O exílio nasce bem aqui no cruzamento deste silencioso retiro com o ruído de uma mente que não mais se suporta. Apenas o vento e o som de algum gato preguiçoso a fazer ecos de uma máquina compulsiva e barulhenta. Extremamente compulsiva.

          Como acordar numa noite e não saber quando fomos deitar, por que dormíamos, que sono era este. Desmontando histórias com o não saber, passados, futuros. Como acordar sem solução alguma, sem direção, sem outra possibilidade que não o acordar. Algo sem definição rondando o olhar que mal desperta deste sono. Algo inevitável. Nada mais a fazer.

          Está aqui o que preciso (des-) fazer. Bem aqui, acordando comigo agora. Em nenhum outro lugar ou pensamento, apenas isso. A busca do máximo possível de lucidez. Aquele perceber que nos chega sem palavras, um sentir total. Há um silêncio agora e uma imobilidade atordoante. Há uma relação com o que vejo e o que penso neste palco de retiro. Aos poucos a "mente" vai sendo tomada por um estranhamento e um torpor.

         Meditação? A mente move-se como um pêndulo, ora atinge um estranho saber-se, ora perde-se em si. Mas há o movimento e a alteração da qualidade. A sala fica estranha com suas paredes brancas, os gatos dormem, continua o vento lá de fora.

                                                                         * * *



          Lua cheia à zênite, 22h57min.

          A vida de um "pensador compulsivo", de um desperdiçador nato de energias. Não há outra coisa a fazer senão fugir quando mergulhados nesta sobrevivência. Tínhamos a noção do quanto isso era irreal, e desde cedo. Mas nos arrastávamos sob o imenso peso da inconsciência, o fardo humano, tão irreal (mas funcionante!) quanto nós próprios. A inexistência que massacra, pois a formamos, a tornamos imensamente sólida quando buscamos os primeiros movimentos do dia. Não era algo que acordava comigo. Acordava nela, tomava-a como realidade, isso até desistir. Anos em fugas e inconsciência, ferido e ferindo, havia desistido de desistir. Simplesmente esquecido. O que mais escrever sobre o inferno?

          O inferno das fugas, o "campo das anestesias", um longo tempo de sono confuso. E talvez nem mesmo pudesse tentar abrir os olhos antes. Pelo tamanho do fardo,sua densidade. E por todo o restante do mundo que também sofre. Estávamos ligados. E a partir disso funcionávamos. Atores vendados e perdidos num palco escuro, irremediavelmente representando a própria fuga. Técnicas de plena narcose, de mover-se no sono, desgastante e perigoso improviso. Fantasmas hipnotizados acreditando numa existência forjada.

          Não culpo um mundo caótico. Nem seu andarilho cego. Existe algo nesta energia que exala da existência, existe uma densidade que parece naturalmente tolher, afundar. Uma atmosfera que entorpece profunda e naturalmente. Entra com ar que respiramos, movimenta uma série de medos e egos, permite que criemos fantasmas e nos confundamos com eles. É desta esfera, é do existir. Nascer é adentrar na escravidão. E nossas correntes e armaduras já vinham sendo preparadas há milênios. Não havia como não usá-las. Como tentar um nascimento sem dor, um parto não traumático. Mas haverá o choque do nascer e este choque é do que veio, do que nasce. Intransferível, procurando outros choques, colocando-os na malha da armadura... E arrastando o ser às vezes pelo resto de sua existência lúcida.

          Pois foi neste simulacro de existência que nascemos. Não poderia ter sido diferente, há o preço. Preço de uma escolha (ao menos biológica). Mas uma escolha. Há um processo que foge a quaisquer definições ou ciências. Acordamos ao meio de uma viagem traiçoeira e nos damos conta que isso dói. Que estamos com mãos e pés amarrados. Olhos vendados e o estar perdido num mundo incompreensível. Então vamos percebendo que isso é uma cela, uma prisão distante de qualquer paz e cuja fuga é impossível. Não há uma volta, um "adiar", exatamente como um parto. Introjetamos o pavor. Um pavor sem definição, sem objetos definidos, puros. E nossa vida passa a ser a fuga a qualquer preço deste desconforto, disso que ora surge como tristeza, angústia, ou ansiedade. Que também oscila em intensidade. Que nos suga, pois é da existência.

          O despertar. Gosto do termo. Já vínhamos percebendo que a coisa estava errada. Sentíamos por uns poucos momentos que nada disso era autêntico, real. Que "ISSO" não se encaixava em nenhum modelo, não era englobado por nenhuma resposta, que não servia a nenhuma equação. Muitos procuraram caminhos estabelecidos, práticas e crenças, muitos mergulharam profundamente em "soluções" possíveis. Traziam algo diferente (como eu), um estranho saber que adormecia. Um "divisor de águas" me apareceu, certo dia, quando finalmente li uma xérox de uma palestra de Krishnamurti (trazida pelo meu pai, ainda era um moleque perturbado). Senti imediatamente que não havia caminho. Isso ao menos me permitiu descambar loucamente por minhas fugas sem nenhum caminho. Tornei-me um fugitivo "místico ateu".

          Momentos de reflexão profunda surgiram, tive momentos bem interessantes. Mas não conseguia seguir métodos e estava fugindo. Acordava então naquele velho sono, para hibernar por anos e anos. A vida foi então resolvendo-se como podia nestes anos todos, não tinha ambição nem ideais, sentia que "a coisa" ia me atirando por escolhas, profissão, cidades, pessoas, a "coisa" parecia saber o que movimentava e para onde. Ao menos não tive o pesado fardo dos caminhos, dos sonhos e dos ideais. Da mesma forma que esta "coisa" ia jogando com minha consciência. De minha parte, continuava a penosa fuga, em busca de anestésicos.

          Não me pergunto se este momento é mais uma das poucas tréguas que a vida me tem presenteado, se amanhã voltarei a correr feito um loco, entorpecido e exausto de si, ou se manterei a consciência que me toca agora. Sinto-me preso, mas a um espaço que silenciosamente se abre. Que vai se colocando sutilmente entre minhas fugas atuais e meus anestésicos. Há uma qualidade diferente em tudo isso que me imobiliza cada vez mais, por um lado.

          O corpo agora parece leve. Como esta noite sem vinhos e pessoas. Estamos aqui escrevendo, e é só. Algo escorre das paredes e entra pelos dedos, ganha as teclas, preenche outro espaço virtual. Assim como a dor e o sofrimento são da existência - e por ela são mantidos, talvez o que me vem agora seja também da natureza. Este processo de leveza e descoberta, este estranho abrir de almas, talvez isso seja tão natural quanto o sofrimento que a inaugurou. E isso grita quando penso em nossa insignificância, em nossa absurda pequenez. Um corpo vivo, uma mente que sobrevive, um processo que desabrocha daqui deste silêncio (cada vez mais surdo). A única realidade onde posso ancorar-me, a consciência, sua direção, os movimentos que representa agora. Um corpo vivo enquanto configuração impermanente, idêntico ao que se passa na alma.

       
       

       


Confraria dos Despertos: O perigo do escapismo místico

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