{:<-
O som das ondas quebrando próximas, o vento que toma a noite em movimento, rastros atuais de um exílio e seus ventos. Encontro-me aqui nesta madrugada insone, preso a um instante que flui. Estranha forma de continuidade que escreve e recorda, pensa.
Um sossego inesperado e sem motivos, talvez falso ou mesmo proposital. Dia cheio, distante, extremamente usual em suas penas. Pago. Vencido. Restam-me os minutos antes do sono. Escrever.
Atirar ao mundo palavras inúteis, sentidos tortos, momentos isentos de compreensão, quase autistas. Como um instante vivo que agoniza, vive aos poucos sua morte implacável. E tento mais uma vez fotografar este instante em palavras e imagens tão inúteis quanto meu significado mais sagrado.
Mas a noite continua lá fora, e soprará seus ventos e ondas, rajadas de consciência, solidão, mesmo quando eu estiver aos roncos. Mesmo sendo um outro universo próximo e inatingível. Talvez soprando ao ritmo destas angústias e quase sonhos, com este som de dia vazio e pleno em distâncias.
No intervalo de almoço, enquanto fumava, percebi a diferença entre "ilusionar" e alucinar, veio-me a estrutura do que tenho por realidade traduzida em termos de "tempos internos", o tempo das coisas que internalizamos. Inevitavelmente será escrito mais tarde, outro tempo e teia de ilusões. Um pedaço do dia, o único que valeu.
Quase trinta almas em um sofrimento suposto e por demais humano vieram hoje compartilhar comigo seus teatros e papéis, enquanto vivia meu roteiro mais constante, o dia - a - dia que represento há anos. Perdidas, como eu, neste labirinto insano e fatal. Prisioneiros de um tempo que repete e repete sempre o mesmo grito congelado de tempo, desde os tempos primordiais. De seus tempos primordiais. Do primeiro suspiro em vida, da primeira e mais profunda ferida. Daquilo que os dias sempre atualizam por sermos cegos. Não é minha "depressão", não é minha angústia, não são meus traumas. Estas coisas pertencem ao mundo, atravessam-nos porque somos caminhos, azar quando os prendemos, quando esquecemos dos ventos existenciais. Quando nos tomamos finalmente por estas coisas e cristalizamos nisso. Parece que necessitamos daquele momento, daquele quase insano encontro, daquela satisfação àquilo que nos convida a fluir.
Sonhava em viver meus dias em montanhas e cavernas fotografando animais, livre de um tempo escassamente humano. Ou num laboratório isolado entregue às químicas e estruturas, ou mesmo sendo pago para passar a noite devassando nebulosas e estrelas. Não, eu não sou sádico, não obtenho prazer algum em constatar a falência em vida de almas e sonhos, e muitas vezes ter como única opção prescrever. Ter que medicar existências e estruturas em seu embate com uma sociedade insana e brutal. "Readaptar" almas ao inferno quotidiano que ajudamos a manter desde antes de nossos nascimentos. Não gosto do que tenho que fazer. Mas nenhum outro papel me caberia tão bem. Como fragmentos de minha própria "salvação", minha escola mais dura e preciosa.
2h21min. Primeiro de num fevereiro em luas crescentes. Acostumei-me desde estudante a pagar o preço de ser um animal noctívago. Trabalho bem em sonos, em restos de noites mal dormidas. Até estranho quando caio numa manhã em plenas forças de uma rara noite bem dormida. Talvez precise deste cansaço quotidiano para enfrentar um dia sem levá-lo a sério. Diria que apreciar cafés é antes uma necessidade, algo além de um mero requinte. Tenho alguns neurônios que precisam funcionar de dia. E tenho que, ao final, desfazer todo o peso de um dia, um dia que remonta desde bem antes de meu nascimento. Que tenta me pregar a esta cruz estúpida desde aqueles tempos, me cristalizar humano, enfim. Tenho que desfazê-lo para fluir no próximo instante, morrer, simplesmente vento. Estava ficando bom nisso, um Mestre em ventanias, exímio ventador de coisas e sentimentos.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
Recuerdos...
Outubro, 03, 2010. Domingo.
“Mundus vult decipi; ergo decipiatur” (Petrônius)
Onde quer que, entre sombras e dizeres,
Jazas, remoto, sente-te sonhado,
E ergue-te do fundo de não-seres
Para teu novo fado! (Pessoa)
“Então eu descobri que os seres humanos não mudam porque estão desperdiçando sua energia, não mudam porque estão exercitando sua vontade, que eles julgam ser extremamente nobre, o que é chamado de liberdade de escolha. E, além disso, eles não sabem o que fazer com ‘o que é’ e, portanto projetam ‘o que deveria ser’, e talvez também porque aquilo, o nirvana, a Moksa, o paraíso, é muito mais importante do que ‘o que é’. Esses são os bloqueios que impedem os seres humanos de mudar, essa é a razão porque não transformam radicalmente a si mesmos. Se vocês compreenderam isso profundamente, com seu sangue, com seu coração, com todos os seus sentidos, então vocês verão que há uma transformação extraordinária sem o menor esforço.”(Krishnamurti).
4h. Dia inútil. À tarde, feijões pretos e arroz à carreteiro. Nada de pedras ou noite nas grutas. Eleições e justificativas mais tarde. Estou completamente alheio a este sufrágio inútil. Seis gatos preguiçosos pela casa, quatro cachorros neuróticos. A cachorrinha já está enxergando melhor e livre de carrapatos. Ontem, blues e uma noite devassa, novamente com a senhorita (...).
Sexta passada a cidade parecia invadida por sonâmbulos agitados. Esvoaçavam perigosamente nos carros ou pelas calçadas, um movimento fora do normal, clima tenso e pesado. Não é mais, há muito tempo, a mesma cidade aonde vim morar em 95.
Prefiro a palavra “ocultista”. Um “ocultista cético”, assim perco minhas definições. Em que acreditar? Há sentido em acreditar? A coisa – em – si é inatingível, dela temos construções, ilusões. Mas é um minúsculo fragmento desta coisa, do universo, que “ilusiona”. Com meus sentidos, atinjo uma ínfima parte do todo, aprendo a me mover nele, crio um universo particular. Formo um painel virtual e nele me desloco.
Nada de errado neste processo, todos os seres assim o fazem. Virtualizam assim seus mundos. O único ato criativo nisso tudo é a interpretação. Creio nesta construção, transformo-a através de meus conceitos e condicionamentos, crio assim minha atmosfera existencial. Uma estreita faixa de condições onde posso agir conforme um vivente. E aí se desenrola meu processo, até a morte. Sobrevivo sendo jogado pelos impulsos, tolhido ou estimulado pelos condicionamentos e pelo medo, sempre à mercê de correntes profundas e desconhecidas. Crio a ilusão de ser algo, uma individualidade, independente. Humanizo-me dia a dia, cada vez mais à mercê das profundezas que não vejo.
Ser ocultista é justamente tentar conhecer estas profundezas, as coisas que realmente movem nossas existências. Inicia-se com uma mortal quebra de paradigmas. Sei que, em essência, isso não é assim, e que deve ser vivido de outra forma.
Primeiramente, somos tidos como excêntricos ou até loucos, incompreensíveis e perigosos para o próximo, na verdade. Temem algo em nós. Desconhecem a direção de nossas atitudes, de nossos ventos. Ignoram o caminho que começamos a seguir, um caminho que, no íntimo, causa-lhes horror. Como se nossas atmosferas precedessem nossas escolhas, pois sempre fomos tidos assim, sempre fomos vistos como, no mínimo, esquisitos. Essa coisa é sempre percebida pelas pessoas, muitas vezes antes de nós mesmos percebermos.
O velho Krishnamurti há muito, literalmente, quebrou meus dias (nem tão comuns) de outrora. Nunca mais fui o mesmo após a leitura de uma de suas palestras (não me recordo qual) trazida, certa tarde, em xérox, pelo meu pai. A partir de certo dia, então, começamos a perceber melhor este mundo de ilusões, e creio que cada ocultista teve lá seu “Dia D”. Talvez Weill prefira o termo “mutante”, o que acho também correto. Esta coisa, esta diferença, sempre esteve conosco, precede nossa existência.
O que traria de mais recente: o Krishnamurti que se fixou em mim, que construí, deve morrer. O Mestre foi sempre bem claro em seus escritos, os discípulos sempre corrompem a obra. O “mate o Buda” do Zen. Compreensão de existir-se como passagem, do ônus daquilo que é ilusória e perigosamente retido. O crente não louva deus, louva seu deus, sua projeção, portanto. Cria uma falsa garantia com isso, é movido pelo medo, foge de sua impermanência. Pactua garantias com a coisa, negocia com o universo, escondendo-se da verdade em si. Verdade que não quer perceber. A sua grande mentira.
A quebra de paradigmas tão queridos pelos outros faz-nos perceber verdades incômodas, perigosas ao status quo desta existência de zumbis. Mais distantes das mentiras, nossos caminhos vão a direções completamente desconhecidas pelos demais.
* * *
Amanhece mais um dia. Fome. Penso em ir às pedras, buscar algumas fotos, (dês-)-pensar talvez o dia.
* * *
el Lunes, 12 de septiembre de 2011 a la(s) 1:19h
Desabafo? Não sei. Talvez deixar que alguns pensamentos caiam sobre o papel e tomem forma, deixar que ganhem o mundo e pronto. Daqui do meu exílio, restam-me apenas garrafas de mensagens ao mar.
Habito uma terra sem esperanças. Ilha perdida ao meio de águas insensatas. Ilha que aos poucos dilui-se, encolhe. Tempos cruéis e insanos.
Também habito com uma gigantesca população de avestruzes. O tal lado "avestruz" dos humanos, a cabeça enterrada no chão para que não vejam, não enxerguem. Mortalmente expostos ao inimigo. Não gritarei para perturbá-los em seus sonos mortais, seria insensatez de minha parte.
Eis-me cá diante do mundo. A ele pouco importa o que penso ou (des-)penso. Continuará em seu movimento de Kali - yuga, ceifará cabeças porque tem que ser assim. Minha desesperança concentra-se mais na irreversibilidade das coisas, na impossibilidade do movimento de frear este suicídio coletivo. Estamos em tempos irreversíveis. O olhar que se dirige para o além vê principalmente dores e trevas. Os antigos já intuiram isso.
Habitar esta pobre casca sem esperanças de mundo. apenas o interpreto. Não o criei, não elegi seus padrões e movimentos. E por enxergá-lo um pouco mais, tenho as minhas defesas. Quando uma verdade começa a ser compreendida, ela deixa de ferir a alma.
...
Certa vez, uma grande amiga (e diretora de um grande hospital onde trabalhamos juntos por sete anos) me perguntou como era possível alguém chegar todos os dias em um ambulatório e sem esperança alguma... Carrego esta pergunta até hoje, cada escrito que me cai ao papel tenta respondê-la um pouco mais. Mas há e sempre houve amor naquilo que exala de meus ambulatórios, não posso negar. Um amor que brota até nas terras mais inóspitas e imundas destas esferas. Que não depende de sonhos, esperanças ou avestruzes. Ele apenas está ali, renasce ali, alimentando-se de mistérios e sempre brotando.
...
Estranho isso... Se fosse um ateu, teria me suicidado entre drogas e prazeres divinos. Se existisse como um crente, suicidar-me-ia pela morte de meu deus, um deus de papel e repetitivo... Tudo me parece intenso neste campo, neste duelo. Se me existisse agora um pessimista, adoeceria amargo, infartaria cirrótico e demente. Sendo otimista, seria cego. Se pensasse inocentemente o mundo como um jardim, o destruiria com minha podre insensatez. Mas pensar este mundo como um dos infernos... Que modelo hipotético libertaria a alma mais do que este? Confesso que foi preciso todo um trabalho para conseguir habitar um inferno sem ilusões. Infernos não opostos de jardins, são opostos de céus, lugar repleto por excelência de mortos felizaes. Infernos abrangem viventes em dor, mas viventes do aqui - e - agora.
...
Céus... Como poderia ser inexistencialistamente egoísta e pensar num estúpido e disfarçado céu, enquanto partes humanas minhas ainda sofrem e se despedaçam por aqui? Prefiro ficar neste aqui e doer, lutar por aqui enquanto ainda um só vivente for meu irmão de inferno. É como se desejasse a última hora, ser o último a sair daqui. Algo meu sempre voltará, sempre retornará sem medo enquanto este fogo arder sobre almas. Pois nunca faltarão canetas, penas, nanquins e papéis enquanto este mundo arder sobre almas, em dor.
Nunca faltará a matéria mais íntima destes escritos, como não faltarão bares, corpos e copos. A sublime devassidão só não liberta crentes, os que se culpam por culpa nenhuma. Qualquer movimento liberta se for, em essência, doação ao desconhecido. Se for autêntico e livre.
21h38min. : Verdades estranhas descem com os escritos aqui neste bar curioso e sem almas. Vontade de passar a noite por aqui extraindo escritos deste uísque duplo com ventos, lua cheia e alguns humanos por perto. Mas o elástico tem que voltar, temos limites.
...
Minha pequena felina de tres cores aguarda em casa seu jantar. Deve estar agora andando pela casa em busca de meu cheiro, meu calor e nossas dores. Temos agora, neste sórdido e fascinante universo, apenas um ao outro. Isso há muitas noites. Doce e curioso encontro entre duas almas pertencentes a gênero e espécie diferentes, primatas e felinos. Digo que isso faz crescer certo amor por "estar-para-o-mundo", portanto, para a morte. Sou um condenado feliz.
...
22h11min.: A vida eterna habita bíblias, al corões e tao-te-kings, além de mahabaratas. E nas mais absurdas invenções humanas. Não queria um céu de papel.
Nada quero, mas a vida habita-me ainda. Quer habitar-me. Que posso fazer? Ofereço a ela meus morcêgos (que já beijaram minha testa), meus cemitérios com muros e asas negras, e ela surge mais uma vez como lua cheia, ela se apresenta às minhas lentes indiscretas... ela me apresenta sempre os amores mundanos e profundos... Não, eu não a trairia... Que posso faze? Que posso fazer diante de algo soberbo e que nunca respeita convenções? como poderia viver e escrever diferente?
... À minha alma mais profunda, e mais devassa... sempre...
Elásticos da Segunda Feira...
el Lunes, 12 de septiembre de 2011 a la(s) 21:16
“(...) Quando "amo", os primeiros ventos a empurrar a alma: harmonia e movimento, plenitude. Acordo numa manhã diferente, o barulho dos carros e buzinas que sempre me arrancaram puto do último sono agora não me atinge, parece-me uma curiosa sinfonia distante e suportável... O sol, que me cegava pela janela todas as manhãs, agora invade o quarto como uma doce cortina de luz e aquece-me o peito (mesmo nos quarenta graus do RIO...).. A minha interação com as coisas do mundo torna-se doce, agradável, meio chorosa e alegre!!! Sento e escrevo, horas escrevendo, as idéias esvoaçam, caem no papel, fogem, voltam a pousar ali... As melancias!!!!
Então eu procuro um epicentro....
Este epicentro tem um nome e um sexo...
E eu penso que este epicentro injeta em mim toda esta maravilha mimosa que me assolou, penso que esta fulana foi a responsável por esta divina explosão... Não vejo que ISSO TUDO JÁ ESTAVA EM MIM, LATENTE, como as cores e os sons já estão neste meu computador, não vieram pelo modem ou por algum satélite....
Aí eu quero preservar isso tudo, a sinfonia automotivo-timpânica matinal, o abraço quente do sol, ... , E aí? Eu tento cercar a pessoa, impedir que ela saia de meu território, que seja só minha e minha e minha, e de minhas melancias... e se sou intenso, compulsivamente busco isso nesta pessoa, em outras quando ela se vai... Eis aí, penso, a primeira tijolada amorosa.
A segunda:
Meu universo afetivo é cíclico e dinâmico (uma "rebundância"). Este bem estar me tira do meu "normal", do dia a dia a que estou acostumado. Bem, num sistema qualquer, semi-fechado (onde sempre a busca do equilíbrio impera), existe a tendência ao retorno, o elástico esticado tem que voltar ao seu comprimento inicial. O meu "amor" esticou meus elásticos e eles vão ter que retornar ao seu estado inicial. Lei. Então os carros começam a me "azucrinar" com suas buzinas, cada vez mais, todas as manhãs,,, A cortina de sol me faz enfiar a cabeça abaixo do travesseiro, seu calor me faz suar e grudar nojento nos lençóis... Enquanto as melancias apodrecem acima da geladeira. Percebo isso, COMPARO isso com os meus doces dias de "paixonite"... E PLUFT! “Oh, como sou infeliz!” Se o fulano ou fulana está ao meu lado, bem, sabemos o que ocorre com a maioria dos casamentos... Se tudo resultou em mais um pé-na-bunda que levei, me revolto, ODEIO, me DEPRIMO, nunca mais seu alguém, enfim...
Quando comecei e perceber isso, tornei-me um apaixonado por paixões. A princípio, buscava todas ao mesmo tempo, vários epicentros (ocultos uns dos outros, é claro). Mesmo conhecendo o elástico, não o queria frouxo (como a nenhum outro órgão menos pudico...). Era bom? Sim. Doía? Sim. Aprendizado, aulas de Devassologia e Perversões I.
Felizmente envelhecemos. Apressando a marcha do enterro, começo a entender o jogo, é você perceber que o movimento do elástico é este. Que aos poucos, se o deixar voltar harmonicamente aos seus estados anteriores, e reesticá-lo um pouco mais no tempo certo, e deixá-lo voltar, e esticar... O que acontecerá? Estarei deslocando cada vez mais para fora meu centro, flexibilizando... Este me parece "o caminho do amor". Creio que isso signifique, PARA MEU SER, uma espécie de “MEDITAÇÃO DINÂMICA"... Isso vai me levar cada vez mais próximo a uma região onde não posso definir ou teorizar - apenas chamo-a de "pleno amor", despertar, o portal por onde poucos passam. Sim. Krishnamurti comparou o Universo como uma "mente meditando". Sim, creio que deus medite - os deuses meditem!
O pleno amor pode residir bem ali, onde o elástico silenciosamente se finda... O amor passa a ter como objeto o Todo, o Si-mesmo, o Nada, neste estágio tanto faz...(...)”.

Recuerdos...
4
(Te-diarium Inexistencialista: 15-16/10/08)
Dez anos de Ceará neste último onze de outubro. Vim bater aqui quase por pura errância. Os dois primeiros escritos estão miraculosamente preservados. Muitos outros se perderam. Consigo lembrar a noite pela janela, uma lua talvez minguante, uma praça triste e povoada por crianças a cheirar cola e marginais. A Praça da Estação. Big Hotel Pousada, em verdade um Moquifo. Uma cidade estranha, densa e suja. Começaria os plantões do IPC no dia seguinte, 24 horas. Sentia nos dias anteriores uma Natal despedindo-se. Sutilmente, nos bares, nas ondas noturnas do mar. Fechava-se um ciclo de quase onze anos.
Andava muito pelas ruas do centro, um ilustre desconhecido tentando entender-se por aqueles prédios e calçadas, escrevendo nos bares ao por do sol, sem perspectiva alguma. Sentia apenas que alguma coisa iniciava com a morte de outra, ciclos. Estivera em Fortaleza pela primeira vez uns dois anos antes, quando militar, em uma viagem de navio (um rebocador, em verdade). Apenas dois ou três dias. Andei do porto ao Cais Bar, voltando em seguida, a pé. Só. Um longo trecho.
Parece que a “Coisa” escolhe alguns como alunos, aprendizes. Os coloca em certos meios onde as lições vão aparecendo em ordem crescente de dificuldade. Então, translada-os a outros meios mais complexos, onde o processo se repete. As oportunidades vão surgindo, inesperadas, como se uma inteligência oculta estivesse a programar tudo. Assim foi. IPC e São Vicente. Caps de Itapipoca e São Gerardo. Marco, Cascavel, Canindé. Finalmente Quixadá e a vida acadêmica. Esta foi minha escola, nenhuma residência ou professor. Prova de títulos em outubro de 2002 (dia 16!). Sorte.
A “Coisa” também age como uma intrincada rede de opções inesperadas e sem sentido aparente. As escolhas, sempre de última hora e algo impulsivas. As situações que favoreceram as escolhas também seguem este padrão. Algo como “o rumo das venta” paira sobre este processo. Estaria a “Coisa” apenas seguindo nossos estilos?
(Te-diarium Inexistencialista: 18/10/08)
Pode o “futuro absoluto” ser o conjunto de todas as possibilidades, de todos os caminhos que a Coisa poderia ter tomado. Uma coexistência plena de todos os caminhos possíveis. Nossa existência atual dar-se-ia em uma destas sendas ínfimas, em um ínfimo nicho de possibilidades. Mas possibilidades não são vivências. A Coisa seguiu todos os caminhos ao mesmo tempo. Quando um ponto passa a “ser”, percebe, ele traduz estes caminhos e funda o seu minúsculo nicho. “Ilusionamos” um caminho, um universo. Em termos de ilusões, somos os criadores do universo, uma ínfima e distorcida versão da Coisa. Uma espécie de “remontagem às cegas”, onde apenas os padrões representam as semelhanças com o que representamos e “ilusionamos”. Creio em outras instâncias existenciais, outras formas que tomaremos para interpretar a Coisa, não obrigatoriamente a continuidade do que pensamos ser. A impermanência. O fato de não sermos os mesmos corpos a cada minuto. Toda idéia de continuidade existencial é um absurdo. Jamais poderia haver um eu que reencarna, mas um processo que se reconfigura pelos efeitos, um vetor. Movimento envolvendo “pontos interpretantes”. Configurações interligadas em planos sutis, corpos tão impermanentes quanto nossas idéias. É somente daqui que a metafísica deixa de ser absurda, pois se fundamenta na impermanência.
Seria um universo começando a olhar para si? Talvez, mas não daqui de onde estamos, não neste estado dito “humano”. Não sendo autômatos de um sistema insano e brutal. O universo não são somente os intestinos. Talvez para bem longe daqui, possamos dizer isso, viver isso. O velho Krishnamurti comparou, certa vez, o universo com uma mente em perfeita meditação.
Estranho sossego que começa a querer despontar. O mundo “lá fora” começa a chamar. Talvez tenhamos serra em casas abandonadas e com vinhos. São 23h de um sábado que já se põe.
Escreve um renegado, errante dos caminhos e idéias.
Antigos Domínios de Sossego
Quantas vezes escapei para o teto de minha prisão, de meu curral de pedras. Tinha a cidade sob as botas, distante, inócua.
Exausto, contemplava a imensidão
daquilo que podia alcançar com as velhas botas em seu ritmo frenético e sem rumo,
em sua fuga, disparada... sempre sabiam aonde me deixar, sempre...
- 22.05.008“Dias difíceis pela frente. Apenas colhendo aquilo que plantei. “Auto-sabotagem” e talvez outras necessidades nem tão evidentes. Quanto ao relacionamento, sem esperanças. Mudaram os ventos, perderam-se as velhas rotas, foram-se os portos. Erguem-se as velas para mais uma viagem rumo a mares desconhecidos.Encontro-me aqui, diante de uma separação (que, em última análise, busquei). Nada posso fazer. Encontro-me só. Há quanto tempo isso não ocorria? Espanto-me com minha presença caótica, imatura, agressiva. Estranho animal acuado e ferido, espécie de fera selvagem acossada em sua cela, seu olhar é agora mais dor que raiva. Olha perplexo um mundo estranho e frio à sua frente, olha a ferida (mesma ferida de sempre) que agora sangra. Olha o circo que o prende ao mesmo tempo perplexo e apático. Belo encontro. Angustiante. Causa-me dó às vezes. Este encontro será o trabalho. Começamos aqui. Escreveremos daqui. Nenhuma idéia clara do que possa resultar disso – luz, suicídio,não sei. Entro na minúscula jaula apreensivo. Este animal velho e ferido pode fazer-me em pedaços.”
- 23.05.08“I. Coração que por vezes acalma e aceita. Sai um pouco daquela atmosfera opressiva em que se colocou, descansa um pouco. A quase plena sensação de estar diante do vazio e do incerto, de não temer o desconhecido que se revela à frente. De quase estar bem próximo de si.Tento contemplar isso como a um por de sol. Observo e sinto pensamentos que se aproximam e vão. Espécie de trégua, acho. Ainda há a dor, certa anestesia artificial, mas trégua.Noite que vai estrelada e quase agradável, nenhum desespero claro ou compulsão para beber. Melhor manter o coração longe de lembranças e regiões de autopiedade.II. Penso nela. O que estaria fazendo, pensando? Penso na proximidade do morar só, com todo o caos e os fantasmas... Suportaremos? Penso nos novos amores e sexos, mentiras, impulsos, carinhos e carícias... Penso no preparar o arroz à noite na pequena cozinha, o .cuidado que preciso dedicar a mim. Um apartamento pequeno com a representação material de tudo o que restou dos embates com o tempo. Uma extensão em pedras, estátuas e livros, de minha alma viajada. Anseio de um reencontro fatal comigo mesmo.Talvez partes do mesmo Rio – Hotel, da Ilha das Enxadas ou das dezenas de moquifos ordinários por onde pensei e dormi.Mas quem trilhou estas sendas de caos e confusão, quem, senão a ilusão de um existir e consistir há muito descartados?Não, eu não vou juntar cacos para me deprimir agora. Tenho um encontro com este nada avassalador e desesperado que me aguarda há muito... Duelo de onde não sairão vencedores. Sinto ultimamente tudo tão sério neste exílio insano, é estranho...Escorpião surge agora nos céus. É uma coluna vertebral com garras e veneno, é Kundalini, é duelo de morte”
-
- (Te-diarium Inexistencialista: 23/o6/08)Vontade de escrever... Escrever por escrever... Marcar o papel com símbolos perdidos, garrafas de mensagens num alto-mar distante. Transformar o papel em uma expressão ínfima e perdida da alma, um fragmento vivo e distorcido, excêntrico até. Mas vivo. A alma parece constituída por símbolos; símbolos químicos, elétricos, afetivos, sociais, configurações. O que escrevo é parte desta, o que recordam de mim, as marcas que deixei... Símbolos que elevam ao infinito, aos poucos, as manifestações de um vazio por si só. A existência percebida traduz-se então por configurações.
- A pequena Basteth sobe na cama e assalta uns cilindros de massa integral que acabo de preparar com shoyu, ervilhas e peixe. Nosso grau de intimidade cresceu e acho que ela me tem como alguém da família (ou coisa parecida para os gatos). O fez para agradar-me, pois estão horríveis (mas serão meu desjejum pela manha). Como se tivéssemos apenas um ao outro nestes dias. Morava na rua, nas redondezas. Minha ex a trouxe de Fortaleza há meses atrás, ela fugiu de nossa casa e veio estranhamente parar nesta rua aonde vim morar depois. Suas patas traseiras são um tanto espásticas e comprometem o equilíbrio. Uma área rala em pelos no abdome leva a crer em um atropelamento. Tem um olhar profundo e meigo, agitado por vezes. Buscam-me. Coisas que a nossa vã zoologia não explica. Dorme agora como se dona da cama. Suporta curiosa a música, os incensos, a solidão que por vezes chega, algumas insônias, certos escritos idiotas e todo o restante do quarto. Que configurações a trouxeram a mim, quais significados ocultos, que implicações, perguntas que me surgem às vezes e perdem-se no dia a dia. Estamos aqui, ao meio de todo este universo negro como seus pelos. O único cantinho do Todo reservado a estes dois mamíferos excêntricos. Incontestável realidade a mover-nos, e só. Enquanto fragmentos isolados de meu cérebro ainda buscam rastros de sentidos, Bastet dorme agora. O turbilhão de coisas que despenca destes mesmos fragmentos como anseios, memórias, perguntas e angustias, merda pura em essência, nada abala seu sono. Bastet buscou meus pés antes de fechar os olhos e foi-se, como sempre faz.Pouco mais consigo escrever. Esboço de sono em mais uma madrugada engolida, embora idéias fervilhem ainda. Haverá tempo para escrever e é melhor não ocupar o resto de noite com pensamentos sórdidos e inúteis. Acaricio sua cabeça enquanto as garras puxam esta mão para um mundo denso e sem sonhos
- * * *(Te-diarium Inexistencialista: 24/06/08)
- “é sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de ar”
- Ontem terminamos de escrever por volta das três e pouco. Bastet dormiu em minha cama. Seu olhar parecia mais profundo, estava mais próxima. O dia foi denso, pesado, algo no ar destoante e abafado, estranho. Suportei mecanicamente os atendimentos, as pessoas, as ruas e a mim mesmo. Rotinas anormalmente monótonas e uma vontade mal disfarçada de estar fora de tudo, longe, no quarto.
- Chego a pouco em casa, pouco mais de oito da noite. Seu corpo estava ao pé de uma árvore próxima. Rígido, frio, quase intacto, as formigas o cercavam. Apenas a cabeça atingida e um olho para fora, ressecado, sem vida e fitando o nada (os mesmos olhos que me buscavam ontem a alma, verdes). Atordoado, percebo-me só. O corpo de minha companheira negra sem vida, imprevisível desfecho de uma união mística. Só e minhas lembranças, meus negros pensamentos, minhas perguntas inúteis dissolvendo-se no vácuo. Os olhos que me buscavam agora secos e sem vida, fora da orbita, sua expressão não era de sofrimento (estava abaixo de um carro quando este saiu, deve ter sido súbito e sem tempo para a dor, ao contrario de seu primeiro atropelamento... como teria sobrevivido?).
- Há um vazio insuportável, incompreensível, dolorido, denso, uma dor surda e intensa, vácuo de perguntas que não serão respondidas tão cedo. Bastet... Bastet... Fica difícil continuar escrevendo agora, desconheço de quem é este choro convulsivo, quem chama pelo seu nome, quem ainda tenta escrever... Fica difícil lembrar, perguntar ao vazio pela sagrada presença que se foi... Continuar existindo perdido...Bastet chegou a mim em 29 de maio deste ano, mesmo dia em que mudei para cá.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Esquinas
"(...) estranhos (des-)caminhos que passam agora.Ventos silenciosos que nada revelam e não há nenhuma luz, nenhum farol na praia. Como se qualquer pista, qualquer sinal, qualquer certeza fosse fatal com seu peso. Cargas para um naufrágio. O rio-sem-caminhos, a estrada sem chão, os pés descalsos. O doloroso despir-se na noite dos tempos. Apegos que criaram pele. fragmentos perdidos de sonhos e certezas. E cada prisioneiro em seu patíbulo com as roupas que criaram pele.
A própria metáfora da existência, de tudo aquilo que se manifesta por um tempo, de tudo aquilo que sempre se vai. Universo selvagem que arrasta homens e deuses, sem tempo para ser cultuado, sem altares. Apenas o corte de um instante que nos foi arrancado.
A lâmina mais cortante e que não tem fio,atravessa muito além da carne e da alma. A espera mais insana. O grito mais brutal e silencioso. Várias faces da mesma prisão.
Apenas este instante em que ocupo com hálito, carne e sonho... E me salvaria de toda esta dor surda. Deste corredor estreito e sem saída. A velha casa é ocupada por fantasmas que vagam presos às etéreas paredes. Alimentam-se de minha ânsia e minha cegueira. Por este úmido labirinto de ventos. Foram arrancados do mundo enquanto me acreditava vivo. Rondam ainda confusos parasitando meus movimentos em falso. Tento deitar a mente neste vento, mas ela ainda pesa. Tento. Movimentos fatais numa teia. Vento. (...)
(...) Leveza? Nada posso fazer agora enquanto tudo se desmancha em movimentos. Este agir inútil que me assola, esta busca de sentidos onde os sentidos não habitam, talvez o movimento não precise de sentidos. Uma consciência que escraviza fibras nervosas e fiapos de carne para mover-se, e que destas fibras e fiapos exala, o que pode saber?
(...) Saber-se findo e iniciado nesta finitude, tornando-se completamente alheio à densidade humana. Renascendo ali onde todos os outros enxergam a morte, bastar-se aqui, agora, estar aqui e em lugar algum. O centro que joga para fora...
(...) Quem pode dizer o que acontece com a alma em seu deserto na "noite da alma?"... Quem de lá já voltou? Tenho uma alma, um deserto e uma noite para desfazer no vento. Um longo caminho para destruir em solidão, e fantasmas para devolver à luz. Tanto a não fazer, e o tempo é tão pouco. Tanto a não querer que me faltam forças. E regressar para o nada de um inferno tão profundo e sem escadas... Contar com uma sorte que arrasta muda, surda, insana, que sempre traz a Casa dos Ventos...
Leveza. O tempo demolido com as paredes da casa, queima-se o teto e há paz além de toda a fumaça. Sossego de quem não fez nada - ou já desfez quase tudo. Vida que voltará amanhã à sua rotina, um autômato mais vazio passará pelo dia e sedento da noite, mas tranquilo. As ruas estarão lá onde foram deixadas com suas poças e casas, os postes e bares, mas já noutra cidade que não existia. Nada prenderá estas velhas botas ao chão que afunda nas poças, elas compreendem o inferno.
Assinar:
Postagens (Atom)